A ayahuasca (também grafada como auasca ou ioga) tem uma origem milenar e profundamente ligada ao coração da Floresta Amazônica, unindo a botânica ao xamanismo indígena.
Aqui está a história de sua origem dividida em seus pontos principais:
1. A Origem Indígena e Arqueológica
A combinação das duas plantas que compõem a bebida — o cipó mariri ou jagube (Banisteriopsis caapi) e as folhas da chacrona (Psychotria viridis) — foi descoberta por povos indígenas da bacia amazônica.
- Tempo de existência: É difícil precisar uma data exata, mas vestígios arqueológicos (como ferramentas de raspagem e potes com traços de alcaloides) sugerem que o uso de plantas psicoativas na região ocorre há pelo menos 1.000 a 4.000 anos.
- Geografia: A origem está distribuída entre as regiões amazônicas do Peru, Colômbia, Equador, Bolívia e Brasil.
- Etnias: Dezenas de povos indígenas (como os Kaxinawá/Huni Kuin, Ashaninka, Shipibo-Conibo e Yawanawá) já utilizavam a bebida muito antes do contato com o homem ocidental, integrando-a em seus sistemas de medicina, rituais de passagem e conexão espiritual.
2. O Significado do Nome
A palavra “ayahuasca” vem do Quéchua (a língua do Império Inca, que se expandiu por regiões andinas e amazônicas):
- Aya: significa “espírito”, “ancestral” ou “morto”.
- Huasca: significa “cipó”, “corda” ou “vinha”.
Portanto, a tradução mais comum é “Cipó dos Espíritos” ou “Vinha da Alma”.
3. O “Mistério” da Combinação Química
A criação da ayahuasca é considerada um enigma científico fascinante. As duas plantas sozinhas não produzem o efeito psicoativo quando ingeridas:
- A chacrona contém o princípio ativo DMT (dimetiltriptamina), que é potente, mas é normalmente destruído no nosso estômago por uma enzima chamada IMAO (Monoamina Oxidase).
- O mariri contém beta-carbolinas, que são inibidores naturais dessa enzima.
Quando os indígenas cozinharam as duas plantas juntas, o cipó “bloqueou” a enzima do estômago, permitindo que o DMT da folha chegasse ao cérebro. Quando perguntados sobre como descobriram essa combinação perfeita entre milhares de espécies da floresta, os pajés e xamãs tradicionalmente respondem que as próprias plantas e os espíritos da floresta ensinaram a receita através de sonhos e visões.
4. A Expansão Urbana e as Religiões Ayahuasqueiras
Até o início do século XX, o uso era estritamente indígena. A expansão para o mundo urbano e ocidental começou no Brasil, no estado do Acre, a partir da década de 1930, dando origem às religiões ayahuasqueiras (ou sincretismos):
- Santo Daime: Fundado por Raimundo Irineu Serra (Mestre Irineu), um seringueiro maranhense que conheceu a bebida com xamãs na fronteira com o Peru. Ele rebatizou a bebida de “Daime” (do verbo dar: “Dai-me força, dai-me amor”).
- Barquinha: Fundada na década de 1940 por Daniel Pereira de Mattos, também no Acre, focada em curas e forte sincretismo com o catolicismo e a umbanda.
- União do Vegetal (UDV): Fundada em 1961 por José Gabriel da Costa (Mestre Gabriel), na fronteira de Rondônia com a Bolívia, chamando a bebida de “Vegetal”.
Hoje, a ayahuasca saiu das florestas e expandiu-se globalmente, sendo objeto de intensos estudos científicos por seu potencial terapêutico no tratamento de depressão, ansiedade e dependência química, além de ter seu uso ritualístico e religioso protegido por lei no Brasil.

